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Quarta-feira, Julho 8

O capítulo do baile


Escrevi um livro que se chama Vitrola dos Ausentes. Neste livro, cada frase é como se fosse a faixa de um disco rodando. Cada episódio é seguido de uma descrição, fala ou paisagem, e lá se vai o disco rodando por quase 100 páginas. Nada melhor então que levasse o meu relato para um baile. E isto acontece mesmo. É um capítulo chamado Grito de Carnaval e Adjacências e se passa no Baile do Seu Doca.
Eu devo duplamente ao Baile do Seu Doca. Foi também no Princesa da Serra um dos meus primeiros empregos. O Clube Princesa da Serra era o salão frequentado pelos mais humildes de Bom Jesus. Já não existe. Agora, em 4 de julho, teria completado 50 anos. Mas foi marcante. Acélio, Ernani Dutra, Homero animavam com gaita e pandeiro lá. E havia também uma dupla cover dos Irmãos Bertussi. Tocavam sempre aos sábados e davam o recado valendo.
Guri, eu era auxiliar de garçom lá no Seu Doca. Recolher garrafa. Espalhar a serragem na entrada da porta. Vender pedaços de galinha frita de mesa em mesa.
Seu Milito, dos últimos tropeiros (diziam que ele era parente mesmo de escravos) era como uma autoridade no Seu Doca. Respeitado, só a sua presença já evitava os começos de briga.
Nas paredes, pôster de lata de Pepsi Cola e cigarro Minister. Seu Doca (assador da Churrascaria dos Biazolli) era admirador de políticos e ficava contente com a presença dos vereadores. Do ex-prefeito Odilon Guazelli, do Seu Edmundo Jacoby ele vivia falando. Seu Doca era “MDB” no tempo da Ditadura.
Em 1994, esteve na Rádio Aparados da Serra numa memorável entrevista. O Princesa completava 35 anos e apareceu por lá com as Atas. Estava tudo registrado e Seu Doca tinha na memória o início do Clube. Até abrir o seu Salão, apenas os Irmãos Cascata promoviam bailes. Como não era “clube”, tinham lá problemas com a igreja. Os padres implicavam com o “carnaval dos Cascatas”, e organizavam mesmo a “Semana de Arte” quando chegava a época.
O que havia de tão errado com o Carnaval?
Neste contexto é que surgiu o Princesa da Serra. Como o nome indica, era uma homenagem à princesa Isabel e o clube fora fundado para congregar os negros. Os carnavais mais autênticos eram lá no Seu Doca. Meu padrinho João Maria (que também era da Umbanda) organizava os cordões e os blocos. Grandes bailes. E restaram como história dos negros do nosso Bonja.

Crônica no Pioneiro de hoje.

Quarta-feira, Julho 1

Volver a Scott McKenzie

No começo dos anos 80, fui morar numa casa de estudantes, a JUC Casa 7, na Rua da República, em Porto Alegre. Minha Tia Noêmia tinha sido a cozinheira da casa por cerca de 20 anos e fui bater lá. Éramos todos do interior. Havia gente de São Borja a Panambi e as preferências e as ideologias davam o tom daquela diversidade natural. Havia quem lesse o Assim Falou Zaratustra, do Nietzsche, e também quem muito ouvia Volver a los 17, com a Mercedes Sosa.
Eu tentava decorar o Operário em Construção. A casa era bem isso aí. Chegamos a receber o Flávio Tavares, de volta ao Brasil, para que relatasse a sua experiência no exílio. Como se vê, era um ambiente politizado e de muita reivindicação: a JUC estava por fechar por falta de pagamento do aluguel.
Certo, peguei a casa nos seus estertores, mas ainda assim valeu. As assembleias eram obrigatórias e mensais. Havia uma tensão permanente com o despejo e foram assim meus primeiros semestres na faculdade que começava ali.
Em meio a isso, nos finais de semana, eu saia pra variar o ambiente. Visitava a minha antiga família adotiva de Bom Jesus (eles tinham uma boa coleção de discos, até um antigo do Scott McKenzie, que trazia San Francisco). Tia Elsa, o pessoal da Tia Linda, Oneide, o Celso, estavam todos em Porto Alegre. Lá, reencontrava também o Joãozinho, meu irmão de criação, e que falava das novidades da música. Num domingo, me disse, “escute isso!”. Era Billie Jean.
Como escrever agora sobre Michael Jackson que não pareça piegas e redundante?
O fato é que o Joãozinho vinha da Discolândia (a casa de venda de vinis em Bom Jesus) e sabia tudo da “era disco”. E era muito bom o que ele mandava ouvir. Michael Jackson era mesmo 100 passos adiante. Uma mistura de James Brown, Fred Astaire e Charles Chaplin. E inaugurava o clipe na tevê, todo esse bláblá que agora se falou.
A trilha daquele tempo na JUC acabou sendo Mercedes Sosa. Mas sempre restava aquela boa batida de Billie Jean. Convenhamos, uma bela mistura. Disparatada formação cultural.
Essa junção, essa mescla de coisas que se vai apreendendo na vida, transparece no que se escreve depois. E é o que tenta Raquel Weber desvendar de um dos meus livros agora, no mestrado de Letras da UCS. Apresenta seu trabalho este mês. E eu só tenho a agradecer.
Crônica no Pioneiro de hoje.

Terça-feira, Junho 23

Peixes fritos e diploma

A decisão do Superior Tribunal Federal (STF), que extinguiu a obrigatoriedade do diploma para o exercício do Jornalismo (e misturou cozinha com redação, peixes fritos com ética) é de última instância e sobrou para nós os protestos. E é preciso que eles sejam consistentes. Escritor, como os românticos de outros tempos, poderia evocar aqui o direito de “ser jornalista” por gostar do hábito da escrita. Bobagem. Hoje, a sociedade, a clientela quer alguém habilitado, com formação específica, técnica e eticamente preparado para o exercício da atividade jornalística.
Talvez seja válido também recordar aos ministros que liberdade de expressão não é o mesmo que liberdade de informação, que é o que distingue a prática do Jornalismo do direito que a Constituição assegura a todo o cidadão.
Mas, por outro ângulo, até que é em boa hora a decisão do Tribunal que gerou esta onda de protestos. A profissão de jornalista, até aqui, era regulada por um decreto-lei do tempo da ditadura, normatizada por um ato da Junta Militar. Era uma forma de “cassar” jornalistas sem canudo que se manifestassem contra o regime instalado.
Mas, os tempos mudaram. As formas de comunicação evoluíram, as ferramentas do jornalismo se tornaram tão específicas, que a obrigatoriedade de uma formação universitária é uma realidade imposta pelo mercado. E não só: o compromisso social do jornalismo, as balizas éticas da profissão, a indispensável formação humanística, inerente à atividade, só se adquire mesmo na Universidade.
Portanto, somado aos nossos protestos de agora, o que se precisa é um Projeto de Lei no Congresso Nacional, que regulamente e normatize a profissão dos Jornalistas, bem como a criação de órgãos que os fiscalize. É o momento, quem sabe, de se encaminhar a criação de um Conselho de Imprensa, instituição que serviria para acompanhar os atos dos profissionais diplomados no exercício de uma profissão que lida com questão tão delicada como a Informação.
Como se vê, “liberar geral” o jornalismo é uma situação intrincada, perigosa, pois uma notícia, uma opinião pode ser usada para favorecer grupos econômicos, políticos, corporativos, e fugir da sua função principal que é o compromisso com a verdade e a responsabilidade social. A reconquista de nosso diploma começa agora, com a nossa voz no Congresso, em Brasília.
Jornal Pioneiro de amanhã.

Terça-feira, Junho 16

O fazedor de livros

Nunca conversei com frei Rovílio Costa, mas sempre o admirei à distância. A vez que estivemos mais próximos foi no Cais de Porto Alegre, na abertura da feira do livro da qual foi patrono. O que mais ouvi naquele final de tarde mormacento foi: “muito merecido!”. Eram unânimes. Ali estava um homem dos livros.
Frei Rovílio editou centenas de obras com a sua EST (editora da Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brides). Admirava a sua coragem em editar aqueles volumes de quase mil páginas com assuntos que as editoras comerciais jamais publicariam. Confesso, porém, me incomodava a rusticidade dos livros, sem costura, que davam a se despregar tão logo se manuseasse.
Frei Rovílio foi um fazedor de livros. Devo a este capuchinho muito do apego à história de Bom Jesus. Em 1997, em parceria com a UCS, ele publicava Bom Jesus Histórias de uma Cidade. Depois, em 1981, Bom Jesus, Duas épocas. Estes dois livros, do médico Ennio Farias de Abreu e sua esposa, a historiadora Marisa Abreu, sempre serviram de referência para os textos que escrevi sobre o meu Bonja.
São apenas dois exemplos do trabalho de Rovílio próximo a nós. Poderia também citar Vacaria dos Pinhais, de Fidélis Dalcin Barbosa, também editado por ele. Mas, o fato é que Rovílio foi o grande incentivador das pesquisas sobre a imigração italiana em nosso meio. Arquitetura, política, economia, música, o que se relacionasse aos gringos interessava ao capuchinho. E não só. É edição dele, por exemplo, o fundamental Os Capuchinhos do Rio Grande do Sul (nos 100 anos de chegada), de sua autoria em parceria com o meu conterrâneo Luis Alberto De Boni.
Cartas de Alforia de Porto Alegre, sobre a libertação dos escravos na capital, também teve a sua edição. Livros do nosso Mario Gardelin. Frei Rovílio prestigiava toda a área da cultura e seus mais diversos autores.
Quem se interessaria em publicar livros sobre tropeirismo?? Pois bem, ele publicava. E aqui, um ponto de convergência de minha trajetória com este frei que jamais encontrei. Dividi com ele as “orelhas” de apresentação de Bom Jesus na Rota do tropeirismo no Cone Sul, organizado por Lucila Sgarbi Santos e Véra Maciel Barroso. Falei ali de nosso primeiro romancista serrano e do Honeyde Bertussi construtor de bruacas. Percebo agora o privilégio de estar ao lado deste generoso frei, que agora perdemos e nos deixa tão bonito legado.

Crônica para o Pioneiro de amanhã.

Quarta-feira, Junho 10

Caros amigos

José Arbex Jr. pode ser visto como aquela figura que ainda simboliza o jornalista: testemunha ocular da História. De fato, como repórter da Folha de S. Paulo, Arbex cobriu os acontecimentos mais relevantes que fecharam o século passado. Acompanhou a convulsão social do Haiti, a Revolução Sandinista na Nicarágua, viu de perto o Muro de Berlim ruir e privou da companhia de figuras como Yasser Arafat, o líder da OLP, e Mikhail Gorbatchov. Acompanhou, portanto, mudanças fundamentais, como a Abertura da União Soviética, e tem Gorbatchov mesmo como um dos personagens mais importantes de nosso tempo.
Arbex é um dos integrantes também de uma “revolução” que transformou a Folha de S. Paulo no maior jornal do país, a partir de 1985. Junto com figuras como Otavio Frias Filho, Matinas Suzuki Jr. e Carlos Eduardo Lins da Silva, modernizaram a Folha e oxigenaram a forma de fazer jornalismo no Brasil. Daqueles dias, Arbex tem boas lembranças da presença de Paulo Francis (boa gente, boa figura, distante da arrogância que enchia a página do jornal). Conviveram em Nova Iorque ao tempo de Arbex correspondente.
O projeto Folha, inovador, interessante até mesmo do ponto de vista ideológico, logo se transformou também no comum da grande mídia: rápido, ágil e vinculado às normas do mercado. Arbex se desiludiu com esta prática e enveredou por um jornalismo mais interpretativo, alternativo, de preocupação social. E foi ser editor especial da revista Caros amigos, dirigida então por Sérgio de Souza.
A partir daí, Arbex passou a dividir sua atividade jornalística com as aulas na PUC de São Paulo. Aproximou mais do que nunca o Jornalismo da História, e se filiou ainda mais radicalmente entre aqueles que ainda acreditam que a notícia deve ter o seu contexto.
A notícia não deve ficar na simples aparência dos fatos, na rapidez dos acontecimentos, não pode ser simulacro daquilo que se testemunhou. Isto, para Arbex, seria o “showrnalismo”, termo que cunhou para título do seu livro que interpreta a notícia como espetáculo.
Esta experiência e postura profissional é que Arbex veio dividir com os alunos da UCS na Semana da Comunicação. A necessidade de saber dosar informação com a busca da essência dos fatos. A notícia que contextualiza e, principalmente, a notícia que atende ao apelo social daqueles que a protagonizam.
Crônica no Pioneiro de hoje.

Terça-feira, Junho 2

Os espíritas e a neve

O ano que antecedeu a maior neve da história de Bom Jesus foi marcado pela cassação do padre Vitorino, afastado por ter comprado uma camionete sem a autorização do bispo D. Cândido Maria. Frei Valério de Parai então assumiu a paróquia, que tinha ainda por finalizar, por dentro e por fora, as pinturas da igreja. Buscaram então pra empreitada um Emílio Zanon de Caxias.
Começava com um bom trabalho aquele 1957. Além da pintura, havia toda a instalação elétrica, e três carrilhões seriam elevados para avisar a hora das missas. Como se percebe, a Igreja estava bem disposta naquela época.
O espiritismo era forte em Bom Jesus. A escola formada pelos seguidores de Kardec ia muito bem, atendendo até mesmo aos filhos de católicos. Tinha sido idealizada, entre outros, por Francisco Spinelli, incentivador das “Escolinhas de Evangelização” e líder espírita do Bonja. Assim, se pode perceber como uma contrapartida da igreja toda aquela ação: ainda em 1957 inaugurariam duas novas escolas. A Escola Paroquial Frei Geraldo, que atenderia aos mais pobres; e a Escola N. Sra. de Fátima, sob o comando das irmãs franciscanas.
Irmã Branca assumiria em outubro mesmo a escola e também, bem em frente, foi lançada a primeira pedra da nova Hidráulica.
Antes, porém, em julho, mais exatamente no dia 20, a grande “surpresa”. O município amanheceu coberto de neve. A maior da história. A Praça Rio Branco, ainda com o seu coreto (na verdade, o “coreto” era o reservatório de distribuição de água instalado no ponto mais alto da cidade) acumulou neve próximo a 1, 50 m. Era mesmo a maior já vista. Em certos lugares, durando quase 6 dias, matou por jejum e frio parte de todo o rebanho. E parte da cobertura da igreja, ainda cercada de andaimes, também desabou com o peso.
Quase nada. Como os padres estavam a trabalho, em agosto Bom Jesus já pode dar vivas à sua igreja pintada. Em setembro, seria a grande consagração da matriz, porque era em frente à igreja que haveria o Desfile da Pátria. Mas a “parada” foi cancelada pelo surto de “gripe asiática” que assustava “povo reunido”.
Foi mesmo um ano marcante. A igreja fincava os alicerces que intimidaria qualquer avanço do espiritismo de Francisco Spinelli. Morto dois anos antes da grande neve, Spinelli hoje dá nome a livrarias instaladas nos Centros Espíritas de todo o estado.
Texto de amanhã no Pioneiro.

Terça-feira, Maio 26

Bom Jesus acontecido

Vai acontecer uma cidadezinha na serra, os meses de inverno, um fato, a neve e o rigor que tem. Vai acontecer então um parir, a reprodução da espécie, de pertencer a Bom Jesus. Vai acontecer católico ou espírita, água em cacimba, a semente mais rica, vinculados à vaca e ao boi.
E vai acontecer o nosso maior defeito: lembrar. Todas as virtudes, as coisas vindo ao contrário, a mais furiosa emoção. Leão, puma, um pouco de lenda, as mais prestigiadas fazendas, que era mato e muito capão.
Vai acontecer de essa tábua sair embora. De saber das nossas faltas, bailes, lorotas, a boa mentira, Agripina em procissão.
E vai acontecer um primeiro amor. Um amor da juventude, único, aquele pra sempre, Alma do Bonja em diversão.
Ahhá, meu Bom Jesus! Dos Ramos, do Góte, de Vergílio e Vergilina, Higino e Pelinzer. Ao Juventude, ao Santa Cruz. Submeta este Bom Jesus ao teatro, à toda leitura grotesca, aos românticos alemães. E a todos os ironistas, e a todos os piadistas, aos bêbados!, aos bêbados, sim! Vai acontecer de um filho sair aos seus.
E acontecerá então o quê? O nada? Ou o que dizem carinho num gesto de mão? Acontecerão quais sintomas de amor por Bom Jesus?
Uma rosa que nasça no Bonja é bonita. Também há um sino emborcado que badala ao nosso céu. Dai a coerência a este teu filho.
Vai acontecer o que se diz? O que se teme? Ou vai acontecer no cinema, tanto faz. Vai acontecer Bom Jesus outra vez?
Talvez aconteça na sutileza de cada voz na criação. Ao contrário também. Na prontidão dos passos que os personagens dão pra trás. Para trás! Os decaídos se fazem melhor. Vivam os nossos que caíram, por que não?!
O que vai acontecer às esquinas? Diziam ser retas. Onde? Qual? As ruas do Bonja, as suas vielas, em que Europa irei rever?
Quem cuida de nossos túmulos é o Azul pintor. O túmulo de minha mãe. A Banda Municipal que morreu. A sonata que se foi... a saudade, aqui e ali.
Bom Jesus é a definição da vida. Ah, e a vida, rápida demais.
Crônica de amanhã no Pioneiro.